Aprender com o passado

A cidadania exige uma vigilância activa a todos

Como a qualquer homem, não me foi dado escolher o tempo em que queria viver. Também não o saberia fazer, pois, não faz sentido escolher antes de existir ou na ignorância absoluta. Mas estou contente por dobrar um século tão rico e problemático como o século XX e entrar no século XX cheio de esperanças.

Gostaria de evocar, hoje e aqui, a tragédia e vergonha dos totalitarismos do século passado. A par das inquestionáveis conquistas da ciência e das magníficas inovações técnicas que revolucionaram a nossa saúde, educação, condições de vida etc., fomos autores das maiores barbaridades e atrocidades conhecidas na História. Mas parece que não sabemos tirar as devidas ilações desses trágicos acontecimentos que produziram uma verdadeira máquina de produzir vítimas humanas.

O que me inquieta é que muitos de nós parecem não ter compreendido o aviso de Hannah Arendt no seu livro As Origens do Totalitarismo (Dom Quixote, 2004):

«O súbdito ideal do regime totalitário não é o nazi convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem deixou de existir a diferença entre facto e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre verdadeiro e falso (isto é, os critérios do pensamento)».

Vem isto a propósito do que vou lendo e vendo replicado nas redes sociais e nos meios de comunicação.
Foi um ambiente de desrespeito e distorção da verdade e de cinismo que abriu a porta aos regimes totalitários que a seguir se encarregaram de perverter tudo e instalar o medo e o terror.

– Estaremos suficientemente vigilantes?
– Não será a atenção e a vigilância aos falsos profetas um dever da cidadania activa?

Deixo-os com as palavras de Papa Francisco:
“Nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se naquilo que é falso produz consequências nefastas.»
Mário Pissarra

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Preparar o futuro

Democracia e plataformas digitais

“Quando os governos democráticos começaram a avaliar a extensão da perturbação política causada pelas plataformas digitais após 2016, esforçaram-se por encontrar formas de lhes reagir. Alguns esperavam que o mercado agisse como um mecanismo auto-corretor. Outros decidiram que estava na altura de o Estado intervir e assumir um maior controlo sobre a Internet. A verdadeira questão é: o que farão as democracias a seguir? Com base nas suas reacções até agora, parece provável que se dividam em três direcções: no sentido da democracia das plataformas; no sentido da democracia da vigilância; e no sentido de uma democracia digital reformada, «remanipulada».
Na primeira, as plataformas digitais tornar-se-ão ainda mais poderosas do que já são, transformando-se em portais não apenas para serviços comerciais, mas também para serviços públicos, como os cuidados de saúde, a educação e os transportes. Neste cenário, no futuro, mudar de plataforma digital poderá ter maior efeito na vida dos cidadãos do que mudar de governo eleito.
No segundo cenário, o Estado assumirá muito mais poder, obtendo, assim, maior capacidade de observar, incentivar e direccionar os cidadãos. Necessariamente, neste modelo, várias das liberdades de que os cidadãos agora gozam serão bastante mais restritas.
Estas duas direcções – no sentido de um governo atrofiado ou de um Estado demasiado poderoso – são, há muito, vistas como fragilidades inatas da democracia. Em 1861, no início da Guerra Civil dos EUA, Abraham Lincoln perguntou ao Congresso se havia, «em todas as repúblicas, aquela fraqueza inerente e fatal». «Terá um governo», disse Lincoln, «necessariamente, de ser demasiado forte para respeitar as liberdades do seu povo, ou demasiado fraco para manter a sua própria existência?» A revolução nas comunicações digitais e a ascensão dos gigantes tecnológicos tornam esta questão premente, mais uma vez.
Existe uma terceira direcção, no sentido de uma democracia remanipulada para a era digital. Aqueles que querem seguir nesta direcção terão de repensar o que realmente significa democracia — «talvez a palavra mais promíscua no mundo dos assuntos públicos» — e quais dos seus aspectos precisam de ser protegidos. Tendo definido isto, terão de reformar radicalmente os seus sistemas políticos actuais e de redistribuir o poder de uma forma que não agradará a muitos titulares de cargos. Isto significará eleger líderes políticos com visão, coragem e perspicácia.”
Martin Moore (2019). Democracia Manipulada.Carcavelos, SELF: 18 – 19.

Incomoda-me ver os políticos perder tempo com casos que não deviam acontecer, mas que, até parece que são desejáveis acontecerem para se entreterem nas suas intermináveis guerrilhas, em vez de discutirem ideias, programas e projectos para o bem comum. Bem sei que a ideia de bem comum tem hoje uma cotação baixíssima. Todavia, urge reabilitá-la e repensá-la em vez de a esquecer ou arrumar num canto.
Mário Pissarra

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Interrogação vespertina

 

Hoje deparei com este post. Foi publicado por uma mulher. Surgiu-me então a pergunta:

É um elogio ou uma censura à mulher? Reformulo a pergunta. Devemos interpretar:

1.- A mulher é tão inteligente, astuta e esperta que até o diabo tem que aprender com ela.

Ou

2.- A mulher é ainda mais diabólica e, portanto, pior que o diabo.

Qual lhe parece ser a interpretação correcta do Post?
Observação:não se esqueça que na sua resposta está a julgar a mulher que o postou pois ou ela se elogiou ou se dabolizou.
Mário Pissarra

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Curiosidades

 

Cangalhas, cangalheiros e agências funerárias

1. Aprendi o significado de cangalhas como sinal de óculos. Usar cangalhas, pelo contexto, remetia para um velho de óculos. «Usa cangalhas» ou «com aquelas cangalhas» tinha sempre um sentido depreciativo. Remetia sempre para a figura de uma pessoa idosa e com os óculos na ponta do nariz ou, então, para algum pitosga com óculos tipo fundo de garrafa. Numa sociedade em que o acesso a óculos tinha mais a ver com o estatuto económico-social do que com a necessidade, era natural que este sentido pejorativo se enraizasse na linguagem do povo. Os óculos eram sempre um acréscimo pouco estético à figura humana. No século XVI, quando o uso de óculos se tornou moda, nos Países Baixos, surgiram caricaturas em que até os porcos e e cães usavam cangalhas.

2. Mais tarde aprendi que também se usa o termo como sinónimo do que aprendi a chamar «angarelas», usadas pelos burros para transportar água ou outro tipo de cargas. Das mais rudimentares de madeira com espaço para quatro cantaras ou dois molhos ou sacos até à sua reformatação em ferro há grandes ganhos em simplicidade, leveza e e facilidade de utilização. Também conheci este tipo de instrumento em seirões mais parecidos com os alforges. Estas cangalhas eram também um acrescento à albarda do burro.

3. Só tardiamente associei e aprendi que a palavra cangalheiro deriva de cangalha. A proibição dos enterros nas igrejas e o aumento da distância para os cemitérios fez nascer o uso de uma padiola, um carro puxado por um só boi para transportar o cadáver ao cemitério. Do transporte de cangalho ao feito por populares evolui-se para a carreta e desta para o carro funerário. A burocratização do processo criou a necessidade de serviços especializados para tratar de tanta papelada. Assim nasceu a sofisticada indústria funerária. Não consta que os que já fizeram esta viagem se tenham queixado de falta de comodidade do cangalho ou elogiado o caro conforto das agências.
Mário Pissarra

 

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Do riso à preocupação

Wresteling e Trump

Fartei-me de rir com a minha leitura matinal de hoje. Trouxe-me à memória a infância do meu filho e a sua paixão pelo wrestling. Ao acompanhar a sua paixão por este tipo de luta americana apercebi-me das regras do jogo. Não apreciava, mas um pai tem obrigação de (penso eu!). Estava longe de pensar que alguma vez seria possível estabelecer uma relação entre este espectáculo um um presidente dos EUA.

“O que a telerrealidade e o wrestling têm em comum é serem formas de entretenimento de massas relativamente novas na cultura americana, e terem ambos uma curiosa relação com a realidade – uma relação que é falsa, mas que ao mesmo tempo possui algo genuíno.
Na WWE todos os combates são combinados, toda a gente sabe que aquilo é ensaiado. Mas isso não reduz em nada o prazer que proporcionam. O facto de toda a gente estar por dentro da piada, de as aclamações e os apupos fazerem parte do espectáculo, aumenta o divertimento. A Artificialidade não é um aspecto negativo – é justamente o que dá sentido à coisa.
O wresterling e a telerrealidade vivem ambos da ostentação de emoções extremas, de conflito e de sofrimento. Ambos mostram pessoas a gritarem umas com as outras e puxarem mutuamente os cabelos e, no caso do wrestling, a esmurrarem-se. Mas, ao mesmo tempo que vemos aquilo, sabemos que não é real, e portanto não precisamos de nos envolver; participamos na emoção sem precisarmos de sentir qualquer empatia. Ninguém chora quando
os lutadores de wrestling são derrubados e humilhados, tal como não se esperava que chorássemos pelos concorrentes de The Apprentice quando Trump os despedia ou humilhava. É um lugar onde nos podemos rir do sofrimento à vontade. E faz tudo parte de preparar o terreno para esse Igor de tudo o que é falso. Donald Trump. Partes do corpo falsas, combates falsos, televisão falsamente real, notícias falsas, e todo o seu modelo de negócios falso.
E agora Trump enxertou na sua administração esta mesma relação distorcida da realidade. Anuncia que Obama o pôs sob escuta do mesmo modo que um lutador de wrestling declara que vai aniquilar e humilhar o seu adversário. Se é verdade ou não, é irrelevante. Faz parte do teatro. Faz parte do teatro, de espicaçar a multidão. The Apptrentice pode ter acabado, e Trump pode ter abandonado a sua carreira na WWE, mas o espectáculo continua em cena. Aliás, nunca pára.”
Naomi Klein (2019). Dizer Não, não Basta. Resistir à Novas Políticas de Choque e Alcançar o Mundo de que Necessitamos. Lisboa, Relógio d’Água: 61.

Por fim surgiram-me três perguntas:

1.- Trump representa uma ruptura com a classe política ou é antes o culminar de uma longa caminhada a que não prestámos a devida atenção?
2.- Por que futuro iremos lutar: a destrumpização da política ou manter-nos-emos indiferentes ao avanços constantes e bem visíveis da sua trumpização?
3.- Os políticos em Portugal ainda discutem ideias, projectos e programas ou perdem-se nos espectáculos de pequenos incidentes (reais, imaginários, provocados, empolados, …)?
Mário Pissarra

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Violência

Topologia da violência e violência doméstica

Ontem recebi a obra do filósofo alemão Byun-Chu Han (1959 – ) Topologia da Violência. Este filósofo contemporâneo nascido em Seul e iniciando os seus estudos em Metalurgia, em vez de escrever grandes obras, tem escritos textos relativamente curtos (cerca de 150 páginas) sobre problemas da actualidade.
Esta obra, embora densa e de leitura exigente por causa das referências filosóficas de base (Heidegger, Schmitt, Benjamin, Freud, R. Girard, G. Agamben entre outros) promete ser enriquecedora.
Remeto-os para as teses apresentadas na 1.ª página deste livro.

1.- A violência é uma dessas coisas que nunca desaparecem. Os nossos tempos não se caracterizam pela ausência ou diminuição da violência.
2.- A violência é uma realidade proteiforme, isto é, muda com frequência de forma. E também de lugar. A sua forma e lugar varia consoante as constelações sociais.
3.- Topologia da violência responde às perguntas: «quais os lugares da violência?» e ««onde encontrar a violência?»
4.- A violência, na actualidade, «muda de visível para invisível, de frontal para viral, de directa para mediada, de real para virtual, de física para psíquica, de negativa para positiva, e retira-se para espaços subcutâneos, subcomunicacionais, capilares e neuronais, de tal maneira que pode dar a impressão de ter desaparecido.»
5.- A violência que nos cerca é uma violência anónima, des-subjetivada e sistémica. Oculta-se enquanto violência porque coincide com a própria sociedade.
6.- A obra promete fazer uma viagem pela violência e as suas manifestações: da sua negatividade à sua positividade, a sua viagem entre dentro e fora, da violência mítica à violência sagrada (divina), da violência das sociedades da dominação e da submissão à sociedades da competição, passando pela violência linguística.

Após a leitura do primeiro capítulo, surgiu-me um desabafo inquietante:

Como tem sido simplista e redutora a abordagem da violência doméstica entre nós!

Mário Pissarra

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