Festival de Filosofia de Abrantes

Eis alguns dos temas que irão estar em debate no próximo festival de filosofia de Abrantes

Inteligência artificial e reprogramação dos humanos

 

“A inteligência artificial não tem apenas possibilidade de reprogramar os seres humanos e de superar os seus desempenhos naquilo que, até aqui, eram capacidades próprias dos humanos. Ela também tem ao dispor capacidades não humanas exclusivamente suas, o que torna a diferença entre um trabalhador e uma máquina com inteligência artificial mais do que uma diferença de grau. Duas importantes capacidades não humanas que a inteligência artificial possui são a conectividade e o aperfeiçoamento constante.

Como os seres humanos são indivíduos, é difícil conectá-los uns aos outros e garantir que todos estão actualizados. Por outro lado, os computadores não são indivíduos, e é fácil integrá-los numa única rede flexível. Assim, não estamos perante a substituição de milhões de trabalhadores humanos individuais por milhões de robôs e computadores individuais. O mais provável é seres humanos individuais serem substituídos por uma rede integrada. Quando pensamos na automatização, é errado comparar as capacidades de um único condutor humano com as de um único carro de condução automática, ou as de um único médico humano com as de um único robô médico. Devemos antes comparar as capacidades de um grupo de indivíduos humanos com as capacidades de uma rede integrada.

Por exemplo, muitos condutores não estão familiarizados com todas as regras de condução que mudam e, frequentemente. Violam-nas. Além disso, como cada veículo é uma entidade autónoma, quando dois veículos se aproximam do mesmo cruzamento ao mesmo tempo, pode haver um mal-entendido na comunicação entre os dois condutores, resultando num acidente. Já os carros auto-conduzidos podem estar todos ligados uns aos outros. Quando dois veículos destes se aproximam do mesmo cruzamento, não são, na verdade, duas entidades separadas – ambas fazem parte de um só algoritmo. Como tal, as probabilidades de haver algum mal-entendido e de embaterem são muitíssimo mais pequenas.”

Yuval Noah Harrai (2018). 21 Lições para o Século XXI. Lisboa, Elsinore: 44 – 45.

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Os ladrões do meu «eu» só levam pedras

Rastos

Já há tempos fiz aqui referência à resposta à pergunta «quem sou eu?», e ironizei com a resposta: perguntem ao dr. Google. O pretexto para esta brincadeira tinha sido a utilização de uma fotografia minha que eu desconhecia.

Ontem acompanhei um familiar a uma agência bancária. Era suposto ser necessário assinar uns papéis. Como o assunto não me dizia respeito, mantive-me em silêncio, escutando o diálogo da simpática senhora com esse familiar. Por fim, a senhora pediu-me o meu BI. Corrijo: o meu CD. Este infelizmente não tem música! Assim que o introduziu no leitor, diz: já foi nosso cliente e tem aqui a ficha completa. Leu o nome da minha esposa, da minha filha, do meu filho, a morada, etc. Respondi-lhe, secamente, ainda está actualizada. Isto tinha acontecido há cerca de 20 anos e, assim que se tornou desnecessária para receber o fruto do meu trabalho, encerrei a conta. Ainda me informou que tinha conta aberta noutro banco. Tudo isto sem eu perguntar nada. Que mais lá constaria? Quando desaparecerão estes rastos que vou deixando? De alguns, garantem-me, a permanência será um facto. Pelo menos, enquanto por cá andar, está garantida a eternidade dos rastos. Depois? Interessam-me tanto como agora.

De regresso, lembrei-me de J.- P. Sartre e da fenomenologia do olhar. Descreve magistralmente a observação de alguém pelo buraco de uma fechadura. O que me faz o olhar do outro? Petrifica-me, responde. O outro, com o seu olhar, reduz-me a um objecto, coisifica-me, rouba-me a minha liberdade, a minha interioridade, a minha subjectividade. Espolia-me do que há de mais valioso em mim, a minha consciência de ser único, livre e singular, com os seus inúmeros segredos. Esses, que como canta o fadista, nem às paredes confesso. Fico reduzido ao que aparece de mim; à pura exterioridade, às aparências; a uma coisa onde não há lugar para intenções, motivações, sentimentos, paixões, esperanças, etc.; a tal pedra de que fala Sartre e que, segundo Fernando Pessoa, às vezes desejaríamos ser: quem me dera ter inconsciência das pedras … Todos temos esta experiência. Perante certos problemas dolorosos e para os quais não vislumbramos saída, a não existência ou a não consciência aparecem-nos como preferíveis, parecem uma saída. Nestas situações o nada sobrepõe-se ao ser, é sentido como mais positivo que a realidade.

Mas eu, não sou a ficha que o banco lá tem de mim, por mais completa que esteja. Nada diz das minhas qualidades relacionais com os outros. Só lá deve constar se sou de boas contas e os movimentos e com quem. Porventura os riscos de empréstimos e as garantias de fiador. Mas as minhas qualidades relacionais e morais, as minhas preocupações ou ausência delas com os outros, os meus sonhos e esperanças, as minhas vivências, etc., isso, que para mim é fundamental para a minha identidade e para a pessoa que desejo ser, não lhes interessa.

Agora, a petrificação e este roubo, no tempo das redes sociais e da inteligência artificial tem, entre outros nomes, Big data. A partir de todos os dados que vão sendo registados a meu respeito são criados algoritmos. Estes padrões já sabem melhor do que eu o que eu quero e o que eu preciso. Sem eu solicitar nada, já me vão aconselhando, leituras, compras, visitas e muitas outras mercadorias. Julgando que sou livre, já há máquinas a escolher e a «decidir» por mim. Há fragmentos do meu «eu» espalhados por tudo quanto é sítio.

Não me bastava a incerteza da eficácia da oração que a minha avó Brites me ensinou e que rezo com frequência: «que Deus me conserve o tino até à hora da morte!» Martiriza-me mais esta incerteza do que as várias tentativas de roubo de que vou sendo alvo. Os ladrões do meu «eu» só levam as pedras, que construíram e deixaram pelo caminho. Que sejam felizes na sua ilusão, é o que lhes desejo!

Mário Pissarra

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Fique com a sua …

Os seres humanos pensam através de narrativas e não através de factos, números ou equações, e quanto mais simples a narrativa, melhor.”

Y.N. Harari

 

Quando ao chegar ao Gavião, em 1961, ao passar por uma rua da vila, ouvi alguém referir-se aos putos. Nunca tinha ouvido tal termo, mas, em meu entender, era óbvio que era o masculino de um outro vocábulo meu conhecido. Todavia, o contexto do usso da palavra abriu-me o caminho. Os putos era sinónimo de malta, maralha, canalha, miúdos, pequenos, criançada. Mais tarde descobriria que também era o título de uma obra famosa de contos de Altino de Tojal que foi adaptada pela RTP e que era um famoso fado de Carlos do Carmo com letra de Ary dos Santos.

 

Os putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto

Uma fisga que atira, a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser, criança
Contra a força dum chui, que é bruto

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens

As caricas brilhando, na mão
A vontade que salta, ao eixo
Um puto que diz, que não
Se a porrada vier, não deixo

Um berlinde abafado, na escola
Um pião na algibeira, sem cor
Um puto que pede, esmola
Porque a fome lhe abafa, a dor

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens

Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens

Quando cheguei aos arredores do Porto, em 1969, vi escrito no asfalto e nos portões das quintas a palavra «pito». Repetiu-se a cena. Só conhecia a pita. Aqui o masculino da pita era o galo. Logo, o contexto salvou-me outra vez. Bastou-me pensar o que é que nós escrevíamos no mesmo lugar.

Hoje, no grupo dos beirões, alguém perguntou: como se chamava na sua terra a estes feijões? A lista de nomes foi extensa: feijão-frade, pequeno, Zarolho, carrapatos, badamecos, ciclistas, duas caras, careto, xíxaros e chícharos.

Tive o atrevimento de dizer, muito antes de aparecerem todos estes nomes que chícharos era uma leguminosa diferente. A pessoa respondeu que na sua terra era chícharos. Tentei explicar que o facto de ser esse o nome que lhe davam na sua terra, isso não fazia do feijão frade chícharos. Até lá coloquei a fotografia dos chícharos. Deu o exemplo que não é pelo facto de na Idanha se dizer: apitcha-se um palito = acende-se um fósforo que acender é igual apichar e um palito é um fósforo.

Tudo terminou num exasperante: fique-se com a sua! Não me contive. Retorqui: isso não é próprio de um adulto que gosta de aprender!…

Mário Pissarra

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De gustibus et coloribus non est disputandum

As cores e os gostos não se discutem. Lembrei-me deste dito latino, há dias, enquanto ouvia a Vera e o Nuno na terapia a falar sobre as cores. A evidência óbvia é que para a Vera havia muito mais cores que para o Nuno. Ele bem teimava em que lhe explicasse o que era isso de azulão, azul claro, marinho, bebé, bordeau, esmeralda, púrpura etc. Depressa tirei 2 conclusões: 1. há muito mais cores para as mulheres do que para os homens; 2. As mulheres a discutir cores ainda são mais perfeccionistas que alguns homens a discutir vinhos. Eu bem sugeri ao Nuno que perguntasse à Vera quantos tipos de garrafas ela conhecia. Mas ele, não me pareceu nem interessado nem versado na questão …

Cheguei a casa e quis testar a minha ignorância em matéria de cores. Como somos três sportinguistas, sofredores não só pela ignorância das cores, pesquisei as tonalidades de verde. Fiquei abismado! Ora vejam: gramado, menta e mel, tranquilidade, praia, encanto, guaco, broto de bambu, brisa fresca, chá de boldo, limeira, capim santo, tarde primaveril, onda verde, floresta viva. Não sei se ria do limitado conhecimento da Vera, se da minha ignorância e da do Nuno ou do espectáculo que seria ver as «madames» a discutir e a identificar esta inumerável lista  de tonalidades de verde.

Um parágrafo só para curiosos e que o leitor vulgar pode saltar. Verde quarto de brinquedo, kiwi dourado, manga-espada, pálido, floresta de pinheiro, hortelã, água doce, vento nordeste, rabisco, glacial, cinema mudo, creme de abacate, sândalo, casa na árvore, arte total, lima. Limão. orégão, cidreira, canto de pássaro, ábaco, raspas de limão, marfim indiano, laranjeira, fantasia, limão, frutas cítricas, sementes de limão, erva-doce, chá de ervas, alien, chá de ervas, erva-doce, clorofila, puro, grama alta, sálvia, sorbet de uva, composição, capim, cresciúma, fazenda,  frescor, cascata, Atenas, absinto, folha de alecrim, araguaia, verdes montes calmo, jardim botânico, cata-vento, simples, angélico, sereia, pimenta verde, diurno, aloé vera, esperança, céu de outono. Coco verde, ervilha seca, vitalidade pastor, velejando, terrier, vila, mar à vista, vereda, jóia, alto da serra, cebolinha, águas profundas, espacial, campo, floresta negra, Alison, pântano, verbena, agave, folhagem. Além das tonalidades, deparei com muitas palavras que nunca tinha encontrado.

Conheço um Senhor, a quem não tive o prazer de apertar a mão ou mesmo ver, Gottfried Wilhelm Leibniz, filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão. Este ilustre tinha um sonho: acabar com as discussões. A realização desse sonho passava pela máxima: sentemo-nos e calculemos!

Uma das formas mais simples de realizar este sonho é a introdução de medidas exactas e precisas que ultrapassem o qualitativo (alto – baixo; leve – pesado; os palmos, os pés, os braços, as braçadas, as varas, etc).

O seu sonho não passava de um sonho, pois há muitos domínios da realidade onde a quantificação não é possível, assim como a precisão e a exactidão. Mas isso não nos permite negar a verdade inquestionável em muitos outros domínios dos factos e dos conhecimentos da ciência.

A nossa sociedade, por ser democrática e pluralista não pode tratar todo o domínio do saber como se fosse cores ou gostos. Há muitos conhecimentos que são válidos para todos. Há um domínio para a opinião, mas esta na sua imensa diversidade, precisa de argumentar e, uma opinião vale o que valem os argumentos que a sustentam. Ter opinião própria, num adulto, não é aceitar a resposta infantil ao porquê: porque sim!

De modo curto. Nem tudo vale o mesmo nem é questão de opinião. A opinionite que por aí grassa ronda a irracionalidade, a teimosia bacoca e o narcisismo intelectual. Só pode conduzir ao dogmatismo.

Mário Pissarra

 

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o aliviante sorriso

Ontem fui a Lisboa a uma cerimónia oficial. Decidi, por razões económicas e de comodidade ir de comboio. Isto de ser da 3.a idade tem as suas vantagens! Como já andam a falar da 4.a idade, a partir dos 80, é possível que atinja o que outros sempre tiveram: viagens da CP de borla. Duas horas em que não podia fazer nada. Podia dormir, mas como o meu sono é espantadiço e raramente vem quando o chamo, levei um livro para acabar de ler.

O livro era duma sobrinha e a intenção era devolver-lho, uma vez lido. Quando cheguei ao fim do livro, assaltou-me uma dúvida. Tinha pensado que lho dava e ela metia-o na mala, esse mistério que as senhoras transportam e nunca se sabe o que lá anda dentro. Assistir à procura de algo na mala ou assistir ao seu esvaziamento é um espectáculo indescritível e sem preço para um homem. Fiquei preocupado quando me lembrei que certas indumentárias de cerimónia exigem carteira e proíbem a mala. Passei a ter um problema: que fazer ao livro? Um tio não tem o direito de embaraçar uma sobrinha! Se eu não podia estar na cerimónia de livro na mão, ela também não.

Pensei dar o livro à senhora que fez a viagem ao meu lado, muito entretida a ver, presumo, um filme durante toda o tempo. Resolvia, parcialmente, o meu problema. Mas o livro não era meu e, além disso, ela nem me tinha dado o prazer de ouvir a sua voz ao desejar-lhe bom-dia quando cheguei. Viria a ouvi-la mais tarde, já no Oriente, quando me levantei para ela sair.

Fiz, a pé, com gosto e prazer, um velho trajecto habitual: S. Apolónia – Praça do Comércio. Compreendi o que é a praga das geringonças para os turistas, o martírio dos lisboetas com as omnipresentes obras e apreciei as transformações dum campo que, outrora era de cebolas, e agora enobrece a Casa dos Bicos, memória de José Saramago. Logo a seguir, estava um casalinho a aproveitar o tempo de apaixonados. Perguntei-lhes se lhes podia oferecer um livro. O rapaz, atrapalhado pela inusitada pergunta, respondeu de imediato: claro, com certeza, ela até gosta de ler. Ainda bem, mas há uma condição – respondi. Prometem-me que o vão ler. Até porque é a história de Uma Estranha Leitora que era rainha.

Meio problema resolvido com sucesso. Fiquei contente com a solução. Tão contente que, pela primeira vez, entrei na Igreja da Nossa Senhora da Conceição Velha para a visitar. O seu belíssimo portal já me havia prendido os olhos noutras ocasiões. Recentemente restaurada, é uma visita que recomendo. Só lá tropecei com turistas que, mais do que apreciar o que têm diante dos olhos, querem levar, sofregamente, tudo na máquina fotográfica. O exemplo típico de quem não sabe distinguir o que é esteticamente valioso do objecto mais comum e até mesmo sem qualquer interesse.

Quando cheguei ao local da cerimónia reparei que ninguém tinha objectos na mão. A chegada da minha sobrinha complicou a situação. Reparei que trazia uma mala onde cabia o livro. Como os pesadelos não sabem geografia, este veio-me visitar em pleno salão nobre. Empertiguei-me, enchi-me de coragem e contei-lhe a história do livro que trazia para me entregar. Ela sorriu. Eu já o li. Fizeste bem. Aquele sorriso e alívio compensara uma cerimónia longa e pesada que nem a música e a presença dos altos magistrados da nação aligeirou.

Abriu-se uma luz para os livros que hibernam no sótão à espera de serem relidos …

Mário Pissarra

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Novo dualismo — online e offline

 

Hoje, muitos de nós, habita dois mundos: o do online e o do offline. Em qualquer lugar, por mais isolado ou sós que nos sintamos, podemos sempre estar ligados/conectados com o mundo. Com efeito, o recém-chegado mundo não apagou o mundo do offline. Ele continua aí e está para durar.

Agora, a maioria de nós – uns mais do que outros – habitam dois mundos diferentes. Já alguma vez se lembrou da diferença entre os amigos destes dois mundos? Que sentido faz chamar amigo a alguém que se tornou amigo com um clique e que, por qualquer razão, apagamos a sua amizade com outro clique? Mas não são só os amigos que são diferentes. Os comportamentos, as regras, o que é permitido ou proibido, os limites, as competências, etc. Desde criança que sempre se aprendeu a viver no mundo que nos rodeia e, para ser aceites, tivemos de aprender as regras, os costumes e respeitá-las. Alguns de nós, como eu, já chegaram com idade e tardiamente ao mundo online. Cheios de artroses físicas e mentais. Com múltiplas formas de rigidez. Mas os nossos jovens e crianças nascem já dentro do mundo online. Portanto, a sua socialização, a sua aprendizagem, a sua educação, o seu desenvolvimento em todas as dimensões tem de fazer-se também neste mundo.

Como? Não sei. Mas a ausência de respostas não nos isenta da obrigação de procurá-la. Haverá consenso? Claro que não. Como nas questões da educação nunca sairemos da vivência daquele futuro pai que dizia: já tenho 7 teorias para educar um filho. Passados uns tempos alguém lhe perguntou: e então as teorias sobre a educação dos filhos funcionam? Não! Agora tenho 7 filho, mas já não tenho teoria nenhuma. Ou então, o conselho de um filósofo grego. Se queres um filho com determinadas características, dá uma vista de olhos pelos filhos dos teus amigos e escolhe o que mais te convém. Os filhos não são a projecção dos desejos dos pais, mas eles mesmos.

Estas coisas da educação arrastam-me e não sou capaz de parar. Mas, o dualismo do mundo online e offline também são um desafio para a educação. Em muitos sentidos este dois mundos estão nos antípodas um do outro. Mas isso, por muito difícil e problemático que seja, exige uma nova aprendizagem para viver nestes dois mundo de um modo satisfatório e equilibrado. Dirão os filósofos que precisamos de encontrar uma nova arte de viver que procure harmonizar as relações e as competências destes dois mundos. Tarefa ciclópica? Sim, responderão as pessoas da minha geração. Normal e natural, dirão os mais jovens.

Eu, que quase só vivo offline, tenho a sensação que em relação a este mundo a que pertenço quase a tempo inteiro, tenho algum controlo sobre ele. Do que acontece online, tenho a sensação de fazer a triste figura daquele que quer segurar o vento de mãos abertas. No mundo do offline posso não ser o maestro da orquestra, mas ainda vou escolhendo as músicas que quero ouvir e afastando muito do que não me agrada ou aprecio.

O que me preocupa no mundo online? O seu enorme poder de sedução, de indução, de aliciamento; os seus potentes estratagemas e expedientes de manipulação; a forma empática de criar dependência; o seu potencial de monitorização e de nos vender o que querem e de nos levar a desejar o que não precisamos, etc.

E, o que escolherão as crianças e os jovens desta vasta oferta?

Que novas dependências e doenças vêm a caminho?

 

Mário Pissarra

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Os TPCs da liberdade e da felicidade

Hoje, comecei o meu dia deparando com quatro perguntas interessantes:

  • Será preciso ser livre para ser feliz?
  • Será que alguém pode ser feliz nos estados autoritários e nas ditaduras?
  • Se me dessem a escolher entre liberdade e felicidade, qual preferiria?
  • Haverá filosofias que consideram que podemos ser felizes porque não temos liberdade?

A resposta à última pergunta é óbvia. Para a estoicismo só poderemos ser felizes se conseguirmos aceitar o que não depende de nós. Para esta escola de filosofia há o que depende de nós e o que não depende de nós. O que depende de nós alteramos, em função da nossa felicidade; o que não depende de nós, temos de suportar. Dado que a revolta nada resolve, se quisermos ser felizes só temos um caminho: alterar o que podemos e aceitar de cara alegre o que não podemos modificar. Outros filósofos que negam a necessidade de liberdade são Espinosa e Nietzsche. Ambos negam o livre-arbítrio ainda que com fundamentos diferentes. O primeiro em nome do seu monismo ontológico, o segundo, em nome do amor fati. Para ambos a felicidade passa pela aceitação da realidade e consegue-se com a a sabedoria: só o sábio pode compreender que as coisas são assim e aceitá-las.

A maioria das pessoas postas perante a alternativa da felicidade e a liberdade, não tenho dúvidas, escolhe a felicidade. Embora esta seja a preferida da maioria eu, pessoalmente, preferia a liberdade. Sei e compreendo melhor o que é a liberdade do que o que é a felicidade. Além disso, a felicidade é momentânea, esquiva e tentar prolonga´-la é como tentar parar o vento com as mãos. Claro que não me contentarei com a liberdade de pensamento que até na prisão posso ter; exijo a liberdade de movimentos e de expressão do pensamento; não esquecerei a liberdade libertação: da penúria, do sofrimento, da ignorância, etc. Poderia não ser feliz, mas sentiria muitas alegrias!

É tão óbvio que muitas pessoas que viveram em ditaduras e nos estados totalitários que nem é preciso argumentar. O que me preocupa é ver tantas pessoas suspirar por esses regimes políticos como a pátria da sua felicidade. Claro que, para algumas pessoas, dirão que nunca sentiram falta de liberdade nas ditaduras. Há que distinguir o sentimento subjectivo da realidade objectiva.

À primeira pergunta, a resposta é não. Mas lá que ajuda, ajuda e facilita muito. Todavia, quer a liberdade quer a felicidade são, sobretudo uma conquista e uma tarefa. Tarefa de cada um e de todos porque ninguém é livre nem feliz sozinho.

Walter Whitman (1819 – 1892), o poeta pai do verso livre pode ajudar-nos a pensar neste tema com o seu belo poema:

Aproveita o dia

Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de te expressar, que é quase um dever.
Não abandones a tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que se passar, a nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Derruba-nos, lastima-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas da nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, pode fazer-se poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes as tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida num inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda à frente.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

É bom crescer feliz e livre. Mas, para tal, não se esqueça de fazer os TPCs. Ou como diz Miguel Torga: «o desdito destina, mas o resto é  connosco».

Mário Pissarra

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