Televisão e feira do gado

 

Esta noite tive um sonho. A meio da manhã, lembrei-me que durante a noite fui invadido pelas imagens das feiras da Idanha da minha infância. As imagens referiam-se à de S. Miguel (29 de Setembro) que coincidia com o fim das colheitas de verão e os pastores e ganhões se ajustavam e a de Janeiro em que se comprava o porco para numa primeira fase crescer e depois e numa segunda engordar com bolota e milho para a matação. A expectativa eram 8 ou 9 arrombas de carne. Mais tarde, comprar-se-ia outro bacorinho para juntar ao maior, comendo os restos deste e a matar também mais tarde. Sempre era 6 0u sete arrobas a juntar ao conduto que deveria durar para todo o ano. Ir ao açougue era coisa de ricos ou remediados. Tirando um ou outro animal que se criava (galinhas, coelhos, galos, cabrito ou borrego) em ocasiões de festa, carne só a da salgadeira ou do fumeiro.
As minhas feiras de infância tinham dois momentos. Primeiro acompanhado pela mãe e irmãs passava-se pelas tendas para comprar algumas peças de roupa ou calçado. A maioria do tempo gastava-o na feira do gado. Adorava ver os homens apreçar as rezes, depreciar o valor pedido, fazer oferta para a compra, regatear o preço, insinuar desinteresse no que se queria comprar e afirmar que por aquele preço havia muitos animais melhores na feira, etc. Também adorava presenciar a conclusão do negócio, após sucessivas tentativas de fazer baixar o preço com regateios sucessivos, fixando um valor intermédio entre a oferta e o preço pedido. A descida de preço e subida fazia-se, frequentemente, por sucessivas visitas ao vendedor. Os pedidos e ofertas eram em notas (100$00) ou contos (1.000$00). Era deslumbrante para quem aprendia na primária ouvir os adultos: «quanto quer pela junta de vacas?»
«79 notas!» Também me fascinava ver o meu pai e outros homens pegar nas ventas das bestas e dizerem a sua idade com uma margem de erro diminuta. Se havia discordância justificavam a idade atribuída, convidando os outros a olhar para a boca do animal. Já só me lembro que uma das afirmações nestas justificações: «já cerrou». Também me recordo que os vários tipos de animal «cerraram» com idades diferentes. Outra observação curiosa: «o animal está cheio de bichas!» (sanguessugas)
Curiosa era a observação do comportamento dos compradores e dos vendedores. Hoje, diria da sua psicologia. Conheciam-se praticamente todos uns aos outros. Sabia com devia fazer a abordagem com cada um deles. Por exemplo, negociar com o To Zé Maria Maneta não era a mesma coisa que qualquer um dos seus irmão. Havia uma perspicácia dos negociantes para ver se o vendedor estava com a corda no pescoço ou se não tinha pressa em vender. Também detectavam logo quem vinha apenas mostrar os belos animais à feira ou com eles para serem apenas apreçados.

Pela manhã, ao recordar o sonho, questionei-me: mas a que propósito tive este sonho? O que quer isto dizer? Qual o verdadeiro significado deste sonho? É que já pouco me lembro de ter sonhos e quando os sonhos são mais complexos e muitas vezes sem nenhuma lógica aparente.

Depois lembrei-me. Há dias, ao passar pela sala vi os programas «quem quer casar com o meu filho» e «quem quer casar com um agricultor» – creio que são estes os nomes. E numa das vezes, exclamei: mas isto parece uma feira de gado!
Estava encontrada a resposta.

Hoje sei que vou dormir muito mais sossegado. Acabei de ler num jornal espanhol: saiba qual é o país maravilhoso que resiste aos reality shows. Que Portugal é um país maravilhoso sempre ouvi dizer e acredito. Desta resistência é que ainda não tinha ouvido falar e não acredito.

Antes pelo contrário, estes e outros programas levam à prática a máxima aceite pela maioria das pessoas: tudo tem um preço. Haja quem sugira, peça, ofereça e haverá quem aceite e faça. O preço é negociável.

Eu pertenço aos que não aceitam este princípio. Nem tudo pode ser reduzido a mercadoria. Há a dignidade. Lembro-me que numa das minhas aulas, um adolescente aguerrido defendeu com unhas e dentes a tese: «tudo se poder comprar e vender; o problema reduz-se apenas e só a questão do preço». Fiz várias tentativas argumentativas para o demover. Nenhum argumento lógico e sensato convenceu. A sua resistência só parou quando o meu terrorismo retórico o confrontou: a prostituição da tua mãe é apenas uma questão de preço? Ainda achou razoável aceitar a prostituição da namorada, mas a hipótese de se orgulhar com a prostituição da mãe, deixou-o um incómodo silêncio.

Admitir que há valores como a dignidade que não têm preço, exige que denunciemos também a publicidade e outros comportamentos degradantes. Pois quem promove ou aceita fazer esse tipo de publicidade, perde a sua dignidade. A dignidade é um dos valores que espero ser capaz de nunca perder.

Mário Pissarra

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e texto
Anúncios
Standard

Autenticidade, sinceridade, verdade

 

Tenho dedicado algum tempo de reflexão a este tema. Por exemplo, Kant defende que mentir é sempre imoral. No contexto da violência doméstica, sou abordado por um homem com uma faca ou uma pistola e pergunta-me: «viu passar aqui uma mulher vestida com estas características ….?». Eu vi passar de facto a senhora. O que faria?
Sempre desconfiei das éticas da autenticidade e da sinceridade. Muitas pessoas confessam-se sinceras, espontâneas, dizem o que sentem e pensam, sem filtros como agora se diz. Justificam todas os seus comportamentos e atitudes com a afirmação: eu sou assim. Não gosto de mentir nem de hipocrisias. Ora, muitas vezes parece-me, que a sua autenticidade ou sinceridade representa uma falta de empenho para se modificar e que faria muito melhor se tivessem tino na língua, usassem alguns filtros e evitassem ofender os outros. A ética não pode esquecer a nossa dimensão relacional com os outros.
Mas há sempre aspectos que nos escapam.
Mário Pissarra

A imagem pode conter: 1 pessoa, sentado e texto
Standard

Violência doméstica e a impaciência do tempo

 

O tema da violência doméstica e das decisões de um juiz têm estado debaixo do fogo da crítica nos media e nas redes sociais. Dispenso-me de analisar propostas em que o referido juiz é considerado um proscrito e deixou de ter direitos quer enquanto pessoa quer enquanto profissional.
Isto não significa aceitar a sua argumentação ou concordar com ela. Significa a recusa de um modo de pensar: «tudo se resolve se tivermos um bode expiatório». Sempre achei piada à expressão francesa «boucle d’espectacle». Sim, a cerimónia de expiação judaica – um rito de purificação – em que os penitentes descarregavam as suas faltas / pecados para cima de um bode e, a seguir, o apedrejavam para o deserto carregando todas as culpas e libertando-os, tem muito de espectáculo.
A violência doméstica é fundamentalmente uma questão de mentalidade, tal como a fundamentação jurídica é, pelo menos em parte, uma questão de mentalidade. A dimensão discursiva e mediática tem apenas, e já não é pouco, a dimensão de chamar a atenção para um problema que urge alterar, consciencializar para a sua intolerabilidade nos dias de hoje. O importante é alterar as mentalidades e, sobretudo, os comportamentos e as práticas.
Todavia, cruzam-se aqui duas lógicas e duas temporalidades. Os meios de comunicação e as redes sociais funcionam no aqui, agora e já. Como se a mudança funcionasse como os aparelhos que usamos: carregar no botão do on e do off. A impaciência é o tempo da indignação. A indignação é uma reacção emocional pouco estável. A mudança comportamental e de atitude mental exige racionalidade e precisa de tempo. Um tempo longo e não o da imediatidade do tudo e já. Amanhã, os media e as redes sociais escolherão outros conteúdos para alimentar a nossa indignação. Precisamos de cabouqueiros para fazer o trabalho de sapa da longa duração que leve à mudança das atitudes e das mentalidades.
Um exemplo de sentença 22 de Janeiro de 1965 do juiz Leon Brazile do estado de Virgínia sobre um casamento inter-racial. Esta sentença fará corar, hoje, o mais conservador dos juízes.

«As partes foram culpadas de um crime da maior seriedade. Esse crime foi contrário à declarada lei pública, fundamentada por motivos de política pública (…) da qual dependem a ordem social, a moralidade pública e os interesses de ambas as raças. (…). Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes separados. O facto de ter separado as raças demonstra que ele não pretendia que as raças se misturassem.».

Como foi possível alguém escrever isto há 54 anos. Dá mesmo vontade de rir.

Confiar no homem e na humanidade, tal como numa criança ou num jovem exige dar-lhe tempo. O longo caminho no combate às irracionalidades é longo e duro. As irracionalidades são persistentes e metamorfoseiam-se. Não desapareceram as pessoas que acreditam em bruxas, lobisomens, gambozinos, unicórnios, duendes e certas práticas mágicas. Contudo, vão diminuindo os que levam a sério estas crendices e práticas mágicas.
Mário Pissarra

Standard

Ditaduras digitais

Será este o nosso futuro?

Por norma, sou uma pessoa optimista em relação ao futuro da humanidade. É verdade que a história do homem quer no processo de hominização quer no de humanização é fruto tanto da inteligência quanto da estupidez do Homo sapiens.
Tenho para mim que uma das maiores manifestações da inteligência humana se revela nas suas escolhas quer enquanto indivíduo, quer enquanto espécie. Aí radica o meu optimismo e a a minha esperança. O homem faz as escolhas sempre em função do que considera melhor para si. Por vezes, erra estrondosamente. Mas, porque é inteligente corrige o erro, pois a sua inteligência não é um processo automático, mas adaptativo e evolucionário. A consciência dos perigos (atómicos, económicos, sociais, políticos, ecológicos, tecnológicos, etc.) levar-nos-á a evitar condutas que ponham em perigo a nossa sobrevivência.
Seria preferível não agir estupidamente nem cometer erros que nos saem tão caros? Com certeza. Mas só um ser inteligente aprende com os erros e e com a sua estupidez.

Ditaduras digitais

“As ditaduras digitais não são o único perigo que nos espera. Em paralelo com a liberdade, a ordem liberal também pôs grande ênfase no valor da equidade. O liberalismo sempre apreciou a igualdade política e, gradualmente, apercebeu-se de que a equidade económica é quase tão importante como aquela. Pois, sem uma rede de segurança social e um mínimo de igualdade económica, a liberdade é desprovida de significado, mas tal como os algoritmos da Big Data podem abolir a liberdade, também podem, simultaneamente, criar as sociedade mais desiguais que alguma vez existiram. É possível que toda a riqueza e todo o poder fiquem concentrados nas mãos de uma elite ínfima, enquanto a maioria das pessoas sofre não de exploração, mas de algo pior: irrelevância.”
Yuval Noah Harari (2018). 21 Lições para o Século XXI. Lisboa, Elsinore: 98.

Mário Pissarra

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e pessoas em pé
Standard

Formas de ensinar ou de discurso

 

Hoje, somos confrontados com uma pluralidade de discursos, de formas de vida, de opções diversas no domínio da ética, da política, da religião, da estética, etc. O pluralismo tem as suas vantagens, mas também nos confronta com verdadeiros problemas e com a responsabilidade de saber escolher. Só uma mente aberta aos verdadeiros desafios da vida nos pode ajudar.

O mártir, o herói e o poeta

“A morte do mártir e o sacrifício do herói não são propaganda! O santo e o herói pregam literalmente, pelo exemplo; por outras palavras, é a pessoa e a própria presença do herói que representam a lição de heroísmo. Assim, o herói é eloquente não pelos seus discursos, mas pelos seus actos e pelo mudo exemplo da sua vida heróica, pois somente esse exemplo é exaltante, radiante, comunicativo e infunde o desejo de ser imitado; apenas o exemplo efectivo, seja ele poético ou heróico, é capaz de nos fazer mudar não só de opinião, mas também de conduta. O orador age sobre o seu auditório por sugestão consciente, quer dizer, tenta influenciá-lo ou doutrina-lo; mas o poeta eleva-nos acima de nós próprios através de uma espécie de contágio expansivo, que está para a sugestão como a propagação está para a propaganda.”
Vladimir Jankélévitch (2018). A Música Inefável. Lisboa, Edições 70: 98 – 99.

A imagem pode conter: texto
Standard

Interrogação matinal

 

A inteligência artificial obriga a rever os conceitos de vida e de humano?

“Uma vez tomando a inteligência artificial melhores decisões do que nós sobre as nossas carreiras, ou até sobre as nossas relações, os nossos conceitos de humanidade e de vida terão de mudar. Os seres humanos estão habituados a pensar na vida como um drama de tomadas de decisões. A democracia liberal e o capitalismo de mercado livre vêem o indivíduo como um agente autónomo que faz constantemente escolhas sobre o mundo. As obras de arte – sejam peças de Shakespeare, romances de Jane Austen ou comédias foleiras de Hollywood – costumam girar em torno de uma dada decisão crucial por parte de um herói. Ser ou não ser? Dar ouvidos à minha mulher e matar o rei Ducan, ou ouvir a voz da minha consciência e poupá-lo? Casar com o Sr. Collins ou com o Sr. Darcy? As teologias cristã e muçulmana também se centram no drama da tomada de decisão, defendendo que a salvação os a danação (condenação) eternas dependem de fazermos as escolhas certas.
O que acontecerá a esta perspectiva à medida que recorrermos mais à inteligência artificial para que decida por nós?”
Yuval Noah Harari (2018). 21 Lições para o Século XXI. Lisboa, Elsinore: 81.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Standard