Mercado e inevitabilidade

J.M. Coetzee, prémio Nobel da Literatura em 2003, é um romancista filósofo. Tem a facilidade de tornar as intrincadas questões filosóficas acessíveis e numa linguagem simples. Apresento ao leitor dois exemplos do que afirmo, retirados do livro Um Dia Mau (D. Quixote, 2008):

 

            “A questão do porquê de a vida dever ser comparada a uma corrida, ou do porquê de as economias nacionais terem de se desafiar uma às outras, em lugar de se unirem numa caminhada de companheirismo, por motivos de saúde, não é levantada.” (pp. 84-85)

 

            Mas não foi certamente Deus que fez o mercado: nem Deus nem o Espírito da História. E, se fomos nós, os seres humanos, que o fizemos, porque não podemos desfazê-lo e refazê-lo de uma forma mais simpática? Por que razão tem o mundo de ser um anfiteatro gladiatório onde se mata ou se é morto, em lugar de ser, por exemplo, uma colmeia ou um formigueiro diligentemente cooperativo?” (p.128)

 

Não se levanta a questão da comparação. Significa que se aceita como natural e inquestionável, mas … Comparar a vida a uma corrida traz, por si só, consequências nefastas. O outro não é o amigo, o igual, o que partilha, o que ajuda e me enriquece, etc., mas o adversário que me pode vencer. Ao entrar neste jogo, passo a ser um adversário e até certo ponto um rival ou uma ameaça para o outro que passa a ver-me como alguém cujo objectivo é vencê-lo e ultrapassá-lo. Quer isto dizer que a chamada Civilização Ocidental Cristã é pouco cristã. Explico: não interiorizou a fraternidade universal fundamentada no facto de todos sermos filhos de Deus.

Não podendo culpar Deus nem o Espírito da História como criadores do mercado, não podemos desresponsabilizar-nos. Fomos nós que criamos o mercado que, proclamamos, tudo regula. Um ataque elegantíssimo aos defensores da inevitabilidade e do pensamento único. Entorpeçam-nos com o «é assim, tem de ser assim e não pode ser de outra forma». Quem teve o poder de fazer mantém o poder de desfazer e refazer. Assim os homens o queiram! Uma certeza, porém: os grandes beneficiários de um mercado assim, não querem. Mas eles não são homens, mas não são a Humanidade.

Mário Pissarra

Anúncios
Standard

A esmola é para o cão ou para o pedinte?

Todos já encontrámos pessoas a passear os seus animais de estimação nos espaços públicos. Todos sabemos em que estado ficam esses espaços e conhecemos a falta de civismo de alguns dos donos.

O que eu não sabia é que agora alguns pedintes já não têm só o recipiente para recolher as ofertas, mas têm também um cão ou dois. Presumivelmente por razões afectivas ou de segurança, comecei por supor. Mas um transeunte estranhou o facto e como a cena se repetiu, encheu-se de coragem e perguntou a uma pedinte romena o porquê de ter ali um cão. A resposta foi célere: senão não nos dão a moedinha

Quando nasci para a Filosofia, a pergunta pertinente era: o que distingue o homem do animal? O importante era a diferença. Parece que agora a pergunta pertinente é: o que nos une, o que temos em comum com os animais? Responder que é a animalidade seria a resposta trivial e que sempre foi dada, pois toda a resposta à pergunta pela diferenciação começava: o homem é um animal, racional, falante, cultural, simbólico, etc. Agora, sublinham muitos, o que nos une é o sofrimento. Somos todos, animais e humanos, seres sencientes.

O caminho foi longo:

  1. Naturalizou-se o homem e humanizou-se o animal.
  2. Considerou-se o animal pessoa.
  3. Como pessoa tem direitos inalienáveis.
  4. Desvincularam-se os direitos dos correlativos deveres.
  5. Criminalizaram-se os maus tratos dos animais e, muito frequentemente, ignoram-se os maus tratos aos humanos.

Declaro sem equívocos:

  1. Sou partidário do cultivo de relações de afectividade com os animais.
  2. Sou a favor do tratamento dos animais com dignidade.
  3. Sou contra todo o sofrimento inútil (humano e animal)

Mas tudo isto me impõe algumas perguntas:

  1. A história ao domesticar os animais, dado que toda a domesticação resulta numa submissão dolorosa, cometeu um erro crasso?
  2. A existência de animais de estimação, dado que nenhum animal se domesticou naturalmente, não é em si mesma um acto contra natura e um atentado à felicidade animal?
  3. Os jardins zoológicos só se justificam como instrumentos de protecção de algumas espécies e nunca como lugares de exposição de animais ?
  4. A relação dos homens com os animais só pode e deve ser a de um igual entre pares?
  5. Os animais alguma vez se questionaram como devem tratar os humanos?

Mário Pissarra

Standard

Um sonho perturbador

Singularidade tecnológica e futuro

            “A Singularidade tecnológica remete para uma fractura do tempo na sequência da qual o futuro já não pertenceria ao homem mas a uma espécie, puramente máquina, ou híbrida de homem e máquina. Isso dará ao fluxo do tempo vivido uma velocidade um pouco estranha: não se deterá; continuará a fluir, eventualmente connosco, mas sem nos deixar poder algum sobre o nosso destino, porque nos relegará para um estatuto passivo e animal e isso não dirá respeito apenas ao nosso bem-estar ou ao nosso conforto. Além disso, o mesmo acontecerá com a nossa liberdade. Assistimos a uma inversão do ideal da técnica: onde, no tempo do iluminismo, se julgava que a técnica permitiria ao homem dominar a natureza e tomar em mão o seu destino, actualmente, a técnica levada aos seus limites mais extremos conduz, segundo os defensores da Singularidade [tecnológica], a uma evolução fatal após a qual o homem já não teria domínio algum sobre o seu futuro.

            Na melhor das hipóteses, alguns como Eliezer Yudkowsky garantem que a única coisa ainda possível consistiria em inflectir o nosso futuro para o introduzir em cenário soft com máquinas conciliadoras que nos protegeriam; para tal, apelam para uma inteligência artificial «amiga» (friendly AI) e cortês que satisfaria as nossas necessidades e proibiria qualquer hostilidade para connosco. Todavia, esta benevolência não altera em nada o carácter trágico e inexorável de um futuro que se considera que virá inelutavelmente, como o destino das tragédias antigas, e nos privará de toda a influência sobre a nossa sorte e, desse modo, sobre o nosso devir.

            Esta viragem no curso do tempo suscita inúmeras perguntas sobre o homem, a mente, a morte, o futuro…”

            Jean-Gabriel Ganascia (2018). O Mito da Singularidade. Devemos Temer a Inteligência Artificial? Lisboa, Temas e Debates: 123 – 124.

 

Não vou falar do regresso do riqueza humana das tragédias clássicas gregas, nem do destino ou da liberdade. Gostaria apenas de chamar a atenção para inversão que as tecnologias contemporâneas estão a operar na mente e na cultura. Por definição a técnica foi sempre entendida com um instrumento ao serviço do homem. Esta visão instrumental começou por ser meramente pragmática, mas com o Iluminismo é teorizada e acompanha e ajuda a construir o sonho de domínio. Por meio da técnica o homem dominaria a Natureza e desse domínio retiraria grandes vantagens para o seu bem-estar, saúde, trabalho, etc. Só mais tarde se apercebeu que não existiam só vantagens, pois começaram a surgir problemas de ecologia, aquecimento global, poder destruidor dos armamento, etc.

Como se o domínio da Natureza não chegasse, concebemos a extensão desse sonho dominador ao Homem e à Sociedade. Ainda que mais problemáticas neste domínio, as técnicas foram postas ao serviço da domesticação e manipulação. O seu poder controlador chega a atingir níveis inconcebíveis, intoleráveis e inaceitáveis. O seu poder anestesiante criou uma espécie de voluptas dolendi, isto é, uma servidão voluntária. A denúncia da razão instrumental pela Escola de Frankfurt e outros não foi suficiente para vencer a sonolência.

Agora acordamos sobressaltados com a inversão. O homem-máquina — que a Singularidade tecnológica anuncia — vai colocar o homem ao serviço da máquina. Não será mais a máquina um instrumento ao serviço do Homem, mas o Homem ao serviço da máquina. Numa palavra: o meio passou a fim e o fim a meio; o dominador passou a dominado. O futuro do homem já não está nas suas mãos mas depende das ma´quinas que ele ajudou a nascer e ameaçam conquistar a sua autonomia ( máquinas capazes de auto-aprendizagem) e decidir.

  Preocupado? Como não?

A boa notícia é que no próximo Outubro poderá discutir em Abrantes os problemas decorrentes desta quarta revolução (industrial, tecnocientífica) com especialistas e filósofos nacionais e internacionais. Todos os temas se polarizarão em torno da organização social do trabalho e da Inteligência Artificial versus o humano.

Mário Pissarra

Standard

De pé atrás

Relatórios para satisfazer o gosto de quem os encomenda

“O Roy teve três relatórios técnicos assinados por especialistas aparentemente independentes. Um deles era de um professor que costumava aparecer nos meios de comunicação social com uma certa frequência.” (p. 374)

Papagaios controlados

“—Liga para o teu assessor de imprensa, ele que convoque os meios para amanhã. Vais fazer uma declaração. Aqui está. Só tens de a ler. Admitirás cinco ou seis perguntas. Escolheremos os jornalistas a quem daremos a palavra. Por isso, podes estar descansado, já que não vais ter medo de te enganar. Não vamos permitir segunda ronde de perguntas. O mais importante é que repitas as mesmas ideias: tens intenção de assumir o compromisso que anunciaste há dias sobre este assunto. Perante os relatórios, e embora, isso afecte os teus interesses familiares, não encontras nenhuma justificação para te opores ao fracking. Não te agrada, mas não te podes opor. Ao mesmo tempo, tens de sublinhar que ficas mais sossegado com a valiosa opinião dos especialistas, que garantem que os efeitos do fracking na fauna e na flora serão mínimos e, por conseguinte, os pequenos proprietários de rebanhos de ovelhas não serão afectados. As ovelhas podem continuar a pastar sem qualquer perigo. Vais dizer que queres celebrar as vantagens  que a instalação da empresa de gás vai ter para o emprego. Insistirás em que compreendes a relutância daqueles que não querem que mude nada, mas recordarás que sem mudança não há progresso e que para progredir é preciso arriscar. “ (p. 376)

“Obriguei-o a decorara a declaração. E ensaiámos as perguntas e as respostas que lhe podiam fazer na conferência de imprensa.” (p. 378)

 

Acalmar a opinião pública

“—Qual é o assunto? – perguntei sem muito entusiasmo.

— Petróleo.

— Quem diria …

— Parece que há uma reserva de petróleo muito importante no sul, numa zona turística. Perto de um parque natural. Donaña. Já ouviu falar?

— Nunca.

— Então informe-se. Não vai ser fácil convencer nem as autoridades nem a opinião pública de que o parque não vai sofrer qualquer dano ecológico. Os nossos clientes não vão investir se não tiverem plenas garantias de que vão poder agir como acharem mais conveniente para os seus interesses.

— Uma empresa espanhola?

— Uma empresa americana que, para essas prospecções se juntaria a uma empresa espanhola, não porque precise, mas simplesmente para poupar trâmites. Os espanhóis são difíceis. É melhor ser uma empresa espanhola a dar a cara e a assumir o comando perante a administração.

— E o que é que nós temos de fazer?

— Acalmar a opinião pública.”

Julia Navarro (2016). História de um Canalha. Lisboa, Bertrand Editora: 394.

 

Todos sabemos que as coisas se passam muitas vezes desta maneira. Mas, … por qualquer razão esquecemos. Por isso, convém lembrar e estar sempre de pé atrás. Um não chega. É preciso os dois. Nem assim as garantias são seguras …

Pergunto: será que isto não tem nada a ver com o que se vai descobrindo em Portugal? Há garantis de que os que vão aparecendo são os verdadeiros interessados e manipuladores ou ainda não chegamos ao que está para lá da cortina de fumo?

Mário Pissarra

Standard

Todo o cuidado é pouco!

 

 I – Dois tipos de chefe  

 

“Pouco a pouco fui perdendo a esperança de ser aquilo com que tinha sonhado. «Tornaste-te um caçador de infidelidades», tinha-lhe dito a mulher uns anos antes de o deixar. Sim, era o que era, mas percebia daquele trabalho, e quando alguém deixava um bilhete anónimo era para se descobrir alguma coisa suja que podia ser a capa do dia seguinte. Se tinha aprendido alguma coisa é que existiam dois tipos de chefes: os que acreditavam que a missão do jornalista era contar a verdade independente da mesma, embora prejudicasse os interesses de quem lhe pagava o salário no fim do mês, e os que não rejeitavam espalhar a merda desde que não fosse a dos seus amigos ou a dos seus accionistas.” (p. 223)

II – Jornalismo de investigação?

—Tu sabes que eu tenho razão. Devias estar mais atenta ao que te estou a ensinar sobre jornalismo de investigação: muitos dos casos chegam às redacções  porque alguém se quer vingar de alguém ou porque tem um determinado interesse.

— Então os jornalistas não investigam …

— Mas que disparate é esse? Olha, boneca, o jornalismo de investigação é uma coisa muito séria e alguns dos nossos colegas até arriscam a vida. Mas há ocasiões em que alguém dá uma pista e precisamos de nos perguntar se os seus motivos têm alguma coisa a ver com o interesse geral. Pode ser por vingança, dinheiro, cálculo político para destruir o adversário … A questão é saber discernir.” (p. 245)

III – Verdade incómoda

“—Faço jornalismo de investigação – Respondeu Evelyn na defensiva.

— Tu? Nada disso, querida. Temos colegas que procuram sem que ninguém mande neles, sem que lhes tenham dado uma pista prévia. Quando é assim, costumam deparar com um muro, o dos interesses do próprio jornal. Ainda assim arriscam, insistem e por vezes conseguem pôr o sistema entre a espada e a parede; noutras, a observação pode acabar por transformá-los em párias. Há anos cruzei-me com um dos melhores do nosso trabalho. Deves ter ouvido falar dele. Chamava-se Neil Collins. Era freelancer.

— Claro que sei quem é o Neil Collins. Durante algum tempo publicou reportagens de investigação em vários jornais. Tornou-se famoso.

— Sim, famoso também pela sua integridade, porque nunca fez favores ao poder, porque nunca se amedrontou perante as ameaças, porque tudo o que publicava tinha sido minuciosamente comprovado e ninguém podia desmentir que o que escrevia era verdade.

— Já não publica em lado nenhum.

— Acabaram com ele por se armar em espertinho.

Julia Navarro (2016). História de um Canalha. Lisboa, Bertrand Editora: 244.

             Respiguei estes três fragmentos da minha leitura matinal. A sua actualidade nas discussões dos media em Portugal sobre a corrupção pareceu-me ser razão suficiente. Só os títulos são meus. Neste domínio, a critica teórica da razão instrumental está feita há muito tempo. Urge é que cada um de nós, na prática, se torne um leitor crítico e faça um conjunto de perguntas prévias. Só assim a busca da verdade encontrará algum espaço. De há muito o meu lema ao ler os media é: sempre de pé atrás!

Mário Pissarra

Standard

Corrupção

Ao ler os media e passar os olhos pelas redes sociais, fico com a sensação que a questão da corrupção em Portugal é uma brincadeira de crianças, melhor é uma troca de cromos. Consoante as preferências, simpatias ou filiação partidária assim são os cromos que se apresentam. Assistimos assim a um interessante jogo de ping-pong de cromos. Consoante o lugar que a bola ocupa, presenciámos alguém a chamar a atenção para o outro lado da mesa.

Até agora, os principais jogadores têm sido o PS e o PSD. O CDS, tanto quando sabemos, tem estado fora do jogo (directo), mas não é por falta de cromos. Tem muitos e alguns são trunfos de grande monta. Creio mesmo que se descermos do plano nacional para o municipal, o número de cromos e intervenientes aumenta e não há partido com poder que esteja de mãos limpas.

Os cromos incomodam-me. E muito. Também sempre me incomodou a obstaculização a qualquer tentativa de combate à corrupção. Em vez de ir dando passos nesse sentido, os decisores políticos encontraram sempre defeitos ou limites nessas tentativas e nunca chegaram a um consenso mínimo que, depois, limariam e aperfeiçoariam. Ou seja, fizeram sempre o necessário para que tudo continuasse na mesma. Nisto e em muitas outras coisas fazem-me lembrar a velha estratégia do MRPP nas Reuniões /Assembleia: não se realizavam porque não se conseguia constituir a mesa.

Mas mais que o nome dos cromos ou a contagem de quem tem mais ou menos e quem têm para troca, o que me incomoda sobremaneira é o carácter sistémico que a corrupção atingiu. Não se trata da só da captura do político pelo económico. Vai para além dessa dimensão. A promiscuidade entre o poder económico e o poder político e as suas redes tornou-se tão comum e banal que se acha(va) normal. Esta situação e visão ilustra bem o que H. Arend chamou a «banalização do mal». Uma visão puramente burocrática do mal e cuja desculpa é: todos fazem assim! Agi de acordo com o costume e, acrescento eu, com o esquema montado.

Inquietam-me algumas interrogações:

– as relações entre os grandes grupos económicos (quer na formação quer no funcionamento) alteram-se com a chegada da democracia?

– O que estamos a viver neste momento é um salto quantitativo ou qualitativo? Isto é, numa economia de subsistência falávamos de cunha e tacho, agora, com os grandes negócios falamos de transferência chorudas, avenças, influências, facilitação de negócios, etc.

— Será que isto é uma questão cultural? Vejamos que a questão está na política, no futebol, casos na justiça, na saúde, nos gestores públicos, etc.

Os latinos tinham razão quando afirmavam: Ubi commoda, ibi incommoda. É costume traduzir por: onde estão as vantagens, aí estão as desvantagens. Mas a expressão latina é mais rica. Na corrupção receber benefícios é cómodo e traz grandes benefícios e vantagens. Parece que agora já chegaram alguns incómodos. Ainda não vi, mas espero pelas desvantagens e penalizações. Também espero pela justiça e que esta seja proporcional. De desproporcionalidade (ser preso chocolates, etc.) estão os meus olhos e mente cheios.

Graças à democracia podemos discutir e exigir uns aos outros a prestação de contas dos dinheiros públicos e obrigação para que este estado de coisas não seja admissível. Partidos políticos sim. Novas oligarquias políticas não!

Mário Pissarra

Standard

História do meu liceu (10)

O pedregulho com que nem Deus pode

           “Os escolásticos da Idade Média, que adoravam quebra-cabeças teóricos, confrontaram-se com um dos maiores com respeito à teologia teísta. Surgiu com a seguinte linha de raciocínio: «Deus é omnipotente: o seu poder é ilimitado – ele pode fazer literalmente seja o que for. Mas se Deus pode realmente fazer seja o que for, então pode limitar os seus poderes, e talvez até demitir-se e renunciar a eles completamente. É até concebível que se aniquilasse – ou se transformasse numa rã.”

Nicholas Rescher (2018). Uma Viagem pela Filosofia em 101 Episódios. Lisboa, Gradiva: 112.

              Assim começou hoje a minha leitura matinal. Um livro interessante que escolhe 101 episódios, ao longo da História da Filosofia,  que o autor explora com exactidão, rigor e mestria. Lá encontramos os dilemas e paradoxos mais famosos.

Assim que li esta formulação do problema / paradoxo, lembrei-me do primeiro ano de professor de Religião e Moral. Leccionava todas as turmas do curso geral (7.º, 8.º e 9.º anos – 21 turmas). As turmas do complementar eram dadas pela Irmã Brites Moita, licenciada em Fisíco-Quimica. Os meus alunos gostavam de embaraçar o seu jovem professor de Religião e Moral. Por várias vezes e em diferentes turmas, este problema me foi apresentado, ainda que em versão mais elementar e menos sofisticada.

O diálogo era mais ou menos como se segue:

— Oh, professor, Deus é omnipotente? A que eu respondia: sim!

— Se é omnipotente, então quer dizer que pode fazer tudo. Sim, anuía eu.

— Nesse caso, pode fazer uma pedra tão grande, tão grande, que não possa com ela!

Normalmente o aluno assumia um ar «rufia» triunfante e a turma faziam um silêncio expectante que eu sentia como se todos tivesses exclamado: já te entalou! Não és capaz de descalçar esta bota! Outro havia que se falassem exlamaríam: Já te lixou! Já te encavou!

Estrategicamente, fazia render o suspense deste silêncio. O que para eles era uma ameaça para mim, eu lia como uma bênção oportuna. Começar a discutir filosoficamente a questão da impossibilidade lógica ou metafísica ou da auto-referência era hipótese que não se podia colocar com alunos daquela idade.

Desviava a conversa e começava a falar de possibilidade. Qualquer assunto me servia. Os alunos iam dizendo: isso é possível. Esticava mais no sentido que pretendia até chegar onde queria. Num determinado momento havia um aluno que concluía: Oh professor, tudo é possível. Era o que eu queria ouvir.

Chegara o momento de contra-atacar:

— Tudo é possível. Isto significa que o número de possibilidades não tem limite. É ilimitado.

— Se tudo é possível, então o impossível é possível!

Regressava o silêncio. A sequência a partir daqui era diversificada, mas passava sempre pela cálculo (que nasce das pedras para contar; termo ainda hoje usado na medicina), pela relação da numeração romana com os dedos e o aparecimento tardio do 0 (zero), devido à dificuldade de conceber a ausência de ser ou do nada. A partir daqui era fácil desmontar, através da análise da linguagem: um atributo (potente) e a sua negação (não potente – impotente). Mais tarde, como professor de filosofia até me pelava para embaraçar os alunos com questões de lógica. Mas isso fica para outras histórias

Um belo dia veio uma senhora da Barrada ajudar-nos nas tarefas domésticas. Logo num dos primeiros dias informou-me que o marido tinha sido meu aluno. Disse-lhe: para a próxima vez que a vier buscar, diga-lhe para subir. O Sr, Coelho assim fez. Não o reconheci. De tudo o que tentei ensinar-lhe já não se lembrava de nada. Mas lembrava-se que eu ralhava com os alunos das aldeias e de uma discussão numa aula sobre o nada. Fiquei embaraçado, pois não me via a ralhar com os alunos. Só sosseguei quando ele confessou: agora é que eu torço a orelha e vejo que o senhor tinha razão! Afinal, não era ralhar, mas incentivá-los a estudar porque seria o sucesso no estudo que lhes permitiria encontrar um vida melhor e com melhores perspectivas.

Já mais sossegado pedi-lhe para me contar a história do NADA. Diz ele: foi uma discussão que surgiu numa aula e uns diziam que o nada existia e outros que não existia. O professor deixou-nos discutir e alimentou a discussão e, por fim, concluiu: o nada é um chouriço sem pele nem conteúdo. Estão a ver?

Não é confortável ver tanto esforço a ensinar reduzido a uma história de nada. Um belo dia numa acção de formação de lógica (Cálculo proposicional) contei esta história do sr. Coelho. Quando chegou ao final da acção, um dos formandos com grande e refinado espírito de humor decidiu fazer a ementa do jantar de encerramento com episódios da acção de formação. Sentei-me à mesa, peguei na ementa e vejo: ENTRADAS – chouriço sem pele nem conteúdo = Nada. De facto e infelizmente, a mesa confirmava literalmente o enunciado no menu.

Mário Pissarra

Standard