Meu Deus, concedei-nos serenidade

Ao ouvir os nossos políticos e os doutos «opinadores» sobre os fogos e a realidade vem-me à memória as doutas palavras do teólogo Reinhold Niebuhr:

 

Meus Deus, concede-nos serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar, a coragem para mudar as coisas que podemos mudar e a sabedoria para ver a diferença entre umas e outras.”

 

  • Já perdi a esperança de os ver mudar de discurso.
  • Já não tenho ilusões sobre a objectividade, a verdade, a coerência, … do que dizem.
  • Estou farto de fazerem de mim uma pessoa estúpida ou incapaz de pensar pela sua própria cabeça. Será que pensam que os portugueses ainda não saíram da menoridade? Há séculos que Kant proclamou o abandono dessa menoridade …
  • Já não há pachorra …

 

           O grave é que este estado de espírito é mau. Mau para mim e para a democracia. Ela desacredita-se e desacredita os agentes políticos presentes e futuros; permite generalizações abusivas porque são esses políticos e «opinadores» que ocupam o espaço público; abre caminho ao populismo e faz suspirar muitos saudosistas; sobretudo, minimiza o desejo e o empenhamento na construção de uma democracia participativa e obstaculiza o exercício de uma cidadania responsável. E, ainda mais grave, cria a ilusão de que a política e os políticos são dispensáveis.

Como rezava o teólogo, precisamos de serenidade e de ter sabedoria para ser capazes de ler as diferenças entre as coisas.

 

Mário Pissarra

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Dois pensamentos e uma dúvida

Esta manhã, ocorreram-me dois pensamentos que gostaria de partilhar. As pessoas andam sempre com a boca cheia com as redes sociais. Pelas mais variadas razões. Acontece porém, que o meu fraco conhecimento destas me permite concluir:

  1. As redes sociais albergam descaradamente muitos movimentos anti-sociais.
  2. Descubro nelas inúmeras pessoas muito preconceituosas. Preconceitos sobre os temas mais impensáveis. Sempre gostei da tradição espanhola de preconceito: pré – juízo, isto é, um juízo já feito anteriormente. É só aplicar ao novo caso, sem se analisar e conhecer os factos.
  3. As intervenções mais comuns vão no sentido da intolerância. A fauna mais abundante é a do juiz justiceiro em relação em quem não sente, pense ou aja como ele considera que devia ser.
  4. A recusa de debate e discussão argumentada. O mesmo é dizer: reina um dogmatismo básico e primário.
  5. A informação veiculada mais do que informação é manipulação; quase sempre em nome da verdade. A descaracterização deste conceito e valor é tal que a podemos considerar: o ouro negro das mil utilizações

O outro pensamento tem também a ver com as redes sociais. É o reino dos sabichões. Mas a sociedade não necessita de sabichões, mas de sábios. É verdade que a Internet põe à disposição instrumentos de trabalho e informação à distância de um clique. Mas, … um sabichão não precisa de consultar ou investigar. Ele já sabe, assim o pena.

Acontece, porém, que a sociedade precisa de sábios. Alguém que consiga traduza, após longos trabalhos de digestão as informações e vivências em conhecimentos. E, além disso, os coloque ao serviço da humanidade. O sábio não é um teórico ou um cientista, é alguém que consegue encontrar caminhos para uma vida melhor para si próprio e como proposta para outros. Ao sábio exige-se a sabedoria do viver. Não é um adepto da boa vida, mas da vida boa!

O sábio ao contrário do sabichão, está sempre pronto e gosta de aprender. Não é um papagaio repetidor ou um pavão exibicionista. Tão pouco uma enciclopédia ambulante ou um Doutor Google. Tem consciência dos limites do seu saber. Considera-o uma pequena ilha no mar da sua ignorância. E, sobretudo, não confunde o meio com o fim. Aprende a voar não é muito interessante ou belo. Bonito é voar. O sabichão não usufruirá nunca da descoberta de novos terraços para levantar voo ou imaginar o terrado dos outros e os seus voos.

Bateu-me à porta uma dúvida e deixei-a entrar. Será que estes sabichões alguma vez aprenderam a voar? Ou será que, por preguiça de aprender a bater as asas, só sabem rastejar?

Mário Pissarra

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Robles e os dados

 

Os dados são agnósticos, e podem ser úteis para uma grande variedade de destinatários com diferentes propósitos. No caso de uma cidade, o fluxo de dados duma rede de sensores de uma rua movimentada ou rodoviária pode ser útil para inúmeros operadores.”

Sara Fernandes (2017). Smart Cities. Lisboa, Fundação Luso-Americana: 140.

 

Quando li este fragmento pela primeira vez arregalei e esfreguei os olhos. Não queria acreditar. Fui logo consultar o que dizia o dicionário da língua portuguesa Priberam. Agnóstico = «que ou quem é partidário do agnosticismo» e agnosticismo = «doutrina que declara o absoluto ou as questões metafísicas inacessíveis ao espírito humano», por outras palavras mais simples pensáveis, mas não conhecíveis. Fiquei mais confortado, pois não me havia enganado com o significado das palavras. Mas o problema persistia: o que quer dizer os dados são agnósticos?

Habitualmente os dados são dados e são conhecidos. Que os dados possam ser utilizados para diversas finalidades, que possam ser interpretados de modo diferente e ter leituras variadas, que podem ser sujeitos a tratamentos diversificados, isso não é problema, pois todos sabemos que é assim. Todavia, isso não os torna agnósticos.

A primeira hipótese que coloquei para interpretar a frase foi: há aqui um uso técnico muito específico que eu desconheço. A segunda hipótese, o termo agnóstico é utilizado incorrectamente e apenas quer dizer não teleológico, isto é, os dados em si não têm uma finalidade. São os seus utilizadores que lhe dão uma finalidade. Depois lembrei-me de Einstein que afirma: Deus não joga aos dados. Mas continuei sem encontrar sentido à frase. É verdade que o Deus de Einstein é o Deus cósmico e a sua posição pode ser considerada de agnóstica em relação ao Deus judaico-cristão, isto é, um Deus pessoal e guardião da ética e da moral. Os dados de que fala o ilustre físico referem-se ao jogo de dados, pois o Universo é ordenado, tem uma ordem e, por isso, é inteligível. A ciência consiste em descobrir, encontrar essa ordem. Esta ideia de ordem ajuda-nos a compreender uma coisa estranha. Porque é que todos falam em computadores e os franceses falam em ordinateur? Foi um cientista que consultaram e sugeriu este nome por causa desta ideia de Ordem.

Mas

que tem tudo isto a ver com o Vereador Robles do Bloco de Esquerda?

– será que estaremos perante questões metafísicas e, por conseguinte, pensáveis mas não cognoscíveis?

– estaremos  apenas perante leituras e utilizações diferentes dos dados consoante os interesses e simpatias ideológicas dos intérpretes?

Ou

Como diz Sartre: os dados estão lançados. Tire as suas conclusões. Já tirei as minhas. Os portugueses inventaram um frei Tomás, que nada tem a ver com o de Aquino, mas que ajuda a perceber bem a situação. Além disso, ao que consta, a alguns basta as aparências, mas à mulher de César para além de parecer exige-se o ser.

Mário Pissarra

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Mente aberta aos novos problemas

O aparecimento dos meios audiovisuais fizeram aparecer os estudiosos que condenavam o homo videns. Havia uma perda da capacidade racional (analisar, relacionar, raciocinar, conceptualizar, abstrair, etc.) e tudo se limitando ao imediato da percepção (o que é tudo menos imediato. Bastará evocar os factores sociais, motivacionais, profissionais, entre outros, da percepção.) Esta controvérsia, reeditava a controvérsia de Platão contra a escrita. Também aí a vivacidade do diálogo, a ausência do interlocutor, entre outros factores, representam um empobrecimento, uma perda.

É a reacção normal ao novo. O medo do novo. A segurança do adquirido é sempre uma bandeira que se ergue contra o desconhecido, o que aí vem e não se sabe muito bem o que será e quais serão as consequências.

Alegrem-se os Velhos do Restelo e os amigos de aureolar o passado em nome dos «Bons Velhos Tempos» ou do quando eu era, no meu tempo e quejandas expressões. A sua genealogia é bem antiga. Muito anterior à sua referência escrita. Não merecem a minha simpatia, mas cumprem a sua função e têm a sua utilidade. Como diz o ditado «há pilotos idosos e há pilotos ousados, mas não há pilotos idosos ousados.» A minha simpatia vai para as mão das crianças em que o mundo pula e avança, como nos ensinou A. Gedeão.

A situação repete-se hoje com a Internet e as redes sociais. O curioso da situação é que os argumentos são mais ou menos os mesmos. O mesmo se passa com a motivação. O medo e a incerteza fazem apelo às consequências desastrosas; a segurança das conquistas sólidas alerta para o empobrecimento, as perdas e derrocadas que aí vêm.

Inerente ao meu optimismo e confiança no homem como ser inteligente, faz parte a sua capacidade de aprender com os caminhos que vai construindo e acreditar que, apesar do poder destruidor de alguns, a espécie humana no seu conjunto não teimará em percursos autodestrutivos. Regara geral, a necessidade de sobreviver sobrepõe-se aos restantes valores …

É óbvio que a Internet e as redes sociais estão realmente a mudara nossa forma de ler a realidade, de raciocinar e, naturalmente de pensar. Para melhor? Não sei responder. Para já só posso afirmar: para diferente. O que é diferente exige também diferentes formas de pensar a realidade em que vivemos.

Gostaria de chamar a atenção para alguns problemas novos e que exigem atenção e reflexão:

  • O carácter imediato da informação e a exigência de o apresentar sempre de uma forma agradável e divertida.
  • A substituição do «investigar» pela busca de sites simpáticos com as respostas que convêm e que confirma o que já pensamos.
  • A qualidade e credibilidade da imensa informação disponível.
  • Estamos a tornar-nos menos capazes de ouvir, discutir e debater. Estamos a ficar mais temperamentais e a deixar que os factores emocionais se sobreponham ou sejam exclusivos perante as objecções ou um pensar alternativo ao nosso.

Há naturalmente muitos outros temas e questões a merecerem a nossa preocupação. Voltarei com outros novos temas e questões que o nosso quotidiano exige que problematizemos.

Mário Pissarra

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Pensamento crítico

Atribui-se muitas vezes à filosofia a tarefa de desenvolver o espírito /pensamento crítico. O espírito crítico é, em certo sentido, o contrário do espírito comprometido (engagé), defendido por outros filósofos. Neste caso, trata-se da adesão a certas perspectivas teóricas e haver um empenhamento para que se realizem na prática.

          Haverá contradição entre estas duas perspectivas?

Creio que não. Situam-se em momentos diferentes. o pensamento / espírito crítico consiste na utilização sistemática da capacidade de analisar novas informações, ideias e teorias contraditórias. Esta análise tem de ser feita de forma lógica, desapaixonada, sem condicionamentos prévios, sejam eles emocionais ou pessoais. Significa que durante a análise as opções pessoais, as crenças, religiosas, as ideologias políticas devem, tanto quanto isso é possível, estar suspensas, isto é, não devem interferir na análise.

Depois, vem o momento da escolha, da decisão e da acção coerente e comprometida. Contudo, se o espírito / pensamento crítico trabalhou, o empenhamento ou compromisso são justificados por razões. Ainda que essas razões sejam discutíveis, há argumentos que as justificam e podem ser confrontados com outros argumentos.

Infelizmente, o exercício do espírito crítico é tão raro e mostra-nos todos os dias abundantemente a presença da desonestidade intelectual. É triste mas é a realidade. As vendas que ajudavam a tirar a água da nora/poço mudaram de olhos …

Mário Pissarra

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Inversão dos valores

Nas primeiras aulas de filosofia, sempre que era oportuno e o enquadramento o permitia, perguntava aos alunos se comiam para viver ou vivia para comer. Havia sempre quem considerasse que vivia para comer. Esclarecida a relação: «quem está ao serviço de quem?» e a diferença ente fim e meio, introduzia a questão: viver para filosofar ou filosofar para viver?

Havia sempre uns finórios que avançavam logo com a tese: os professores de filosofia vivem para filosofar porque é a filosofia que lhes dá o ordenado para viver. Para não alimentar discussões inúteis e atrevidas, admitia que esses eram uma pequena excepção. Era fácil conduzir os alunos ao óbvio: tudo o que fazemos, normalmente, está ao serviço da vida, mas que, pelo facto de sermos livres, podemos fazer escolhas prejudiciais para a nossa vida, ainda que ao fazê-lo, possamos estar convencidos que não. Os alunos do 10.º ano facilmente compreendiam que a vida era o valor fundamental (supremo) para o homem e que a sua luta maior era a de a manter e de lhe garantir a qualidade. A própria profissão, seja ela qual for, mesmo a do prof. de Filosofia, era apenas um meio para a construção de uma vida e não um fim em si mesmo, Aproveitavam também que a vida de qualquer pessoa tem de ir muito além da vida profissional. A preocupação era também distinguir a filosofia enquanto reflexão ao serviço da vida dos conteúdos da disciplina de Filosofia.

Ao olhar para os jovens que aguardam a hora das aulas no café que frequento pela manhã e o que vou vendo nas redes sociais, questiono-me:

Vivemos para «feicebucar» ou «feicebucamos» para viver?

            Eu sei, por ouvir dizer, que os jovens já estão mais à frente e que o facebook já passou de moda. Eu quero continuar a utilizar a inteligência para governar a minha vida, esse minúsculo grão de areia no universo e dispensar as «governanças». Não cabe na minha vida a hipótese de resolver os meus problemas, os dos outros e os do mundo a «tuitar»!

Mário Pissarra

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Diabolização da Matemática

Houve um tempo em que nas reuniões de Conselho de Turma, cada professor tinha de fazer percentagens de distribuição das suas avaliações. Muitos levavam as percentagens já feitas e se houvesse alterações refaziam-nas de imediato. Havia sempre alguns professores, alegando que eram de letras, que não só não as traziam feitas como se recusavam a aprender a fazer as percentagens. Sempre lidei mal com esta recusa de aprender a fazer as percentagens. Em meu entender exigia ter aprendido a fazer os problemas na primária ou no ciclo ter aprendido a regra de três simples.

Uma colega de Física para ultrapassar a dificuldade destes colegas, deu-se ao trabalho de fazer uma tabela. A tabela foi distribuída a todos os professores. Bastaria saber ler uma tabela de duas entradas e encontrar a percentagem. Pois, muitos teimaram, alegando a mesma razão, a não aprender a ler a tabela. Só não posso garantir se foram exactamente os mesmos.

Quando falamos com professores é muito comum, acerca do insucesso escolar (eu preferia que nos preocupássemos mais com o sucesso educativo), vir à baila o conceito de iliteracia. Veio substituir, numa sociedade escolarizada, o anterior conceito de analfabetismo.

Não é para os perigos da iliteracia que quero chamar a atenção, mas para os perigos da inumeracia e das suas consequências.

Uma vez numa aula quis explicar o que era o QI. Comecei por explicar: Q de quociente e I de Inteligência; mede-se a inteligência fazendo uma divisão; uma divisão em que temos de ter em conta a IC = idade cronológica e a IM = idade mental. Perceberam que o multiplicar por 100 era apenas para acabar com números decimais. Não fui capaz de os levar a descobrir qual era o divisor e o dividendo, porque só o aluno mais baldas da turma sabia fazer contas de dividir. Justificação: oh professor, nós somos uma turma de letras!

QI={\frac  {IdadeMental}{IdadeCronologica}}\times 100

 

Inumeracia

 

Isto não é um problema de inteligência, mas de educação. Cada vez mais é necessário saber ler dados em que a aversão aos números e a conhecimentos elementares de matemática são não só necessários, mas fundamentais. O perigo da inumeracia passeia-se quotidianamente pelas ruas das nossas cidades e não é garantido que não continue a ter direito de cidadania nas nossas escolas.

Não resisto a contar mais um episódio. Fui vigiar o exame de Matemática numa Escola Superior de Educação. Passados poucos minutos após o início do exame, as alunas começaram a desistir e abandonar a sala. Tentei demover algumas para tentarem resolver o teste. Sem êxito. Peguei na prova de exame e comecei a lê-la e a ver quais os exercícios que eu era capaz de fazer. Chegava para tirar positiva. Eu havia estudado matemática até ao 5º ano (actual 9º) e já tinam passado algumas décadas.

Como pode a escola albergar professores com esta mentalidade e ajudar a criar uma mentalidade de recusa de aprender a matemática elementar a pretexto de que não é ou não quer ir para ciências?

 

Mário Pissarra

 

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